Os Mistérios do Priorado de Sião e a Polêmica "Filha de Jesus"

 

Os documentos e registros da sociedade secreta apontam para uma criação bem mais recente e diferente daquela propagada por seus membros

 

Se levarmos em consideração que o Priorado de Sião se diz fundado e na ativa desde a época das cruzadas, o montante de tempo que leva para se firmar é quase o mesmo de um dinossauro. Afinal, desde os tempos do Novo Testamento que o segredo que revela o que é de verdade o Santo Graal é conhecido por certos círculos, mas poucos são os pesquisadores que acreditam que uma sociedade secreta conseguiria se manter na ativa de maneira tão discreta assim por muito tempo.

Enquanto isso vamos mover nossa atenção para as provas palpáveis do que pode ser a verdadeira origem da ordem. Como vimos antes, a base da crença do Priorado de Sião é a de que Jesus e Maria Madalena casaram e tiveram filhos. O primeiro pensamento que nos vem à mente é por que algo desse tipo teria sido mantido em segredo. A maioria alega que os responsáveis pela Igreja Católica queriam apenas que Jesus permanecesse absolutamente casto, um símbolo de pureza incorruptível, caso contrário não poderia servir de modelo. Se levarmos em consideração que o escritor e pensador grego Nikos Kazantzakis (1883 —1957) já levantou essa hipótese no polêmico romance A Última Tentação, de 1951, que gerou o também polêmico filme de 1988 dirigido por Martin Scorsese, A Última Tentação de Cristo, o assunto não é bem novo. Então por que a preocupação de guardar segredo de tal hipótese?

A mesma Biblioteca Nacional de Paris que recebeu os chamados Dossiês Secretos também possui um documento que entrega a farsa. Documentos recém propagados por pesquisadores europeus mostram que o Priorado de Sião foi fundado na verdade em 20 de julho de 1956 na comuna de Annemasse, na Alta Sabóia, leste do território francês. A autorização para constituição da sociedade foi efetuada em sete de maio de 1956, Sub-Prefeitura de Polícia de Saint-Julien-en-Genevois, com uma carta assinada pelos seus quatro fundadores: Pierre Plantard (1920-2000), André Bonhomme, Jean Deleaval e Armand Defago. Sua sede está indicada como sendo a residência de Plantard, em Annemasse. O nome escolhido é referente a uma região da cidade chamada Mount Sion, onde os fundadores frequentemente se reuniam.

Na época em que começou a funcionar a Ordem usava a sigla CIRCUIT, que em francês significa Chevalerie d'Instituições Règles et Catholiques d'Union Independente et Traditionaliste (Cavalaria da Instituição e Regra Católica e de União Independente Tradicionalista). E o próprio documento de constituição fala que os princípios da sociedade são:

“A constituição de uma ordem católica, destinada a restituir numa forma moderna, conservando o seu carácter tradicionalista, o antigo cavaleiro, que foi, pela sua ação, a promotora de um ideal altamente moralizante e elemento de um melhoramento constante das regras de vida da personalidade humana".

Os demais estatutos incluem (vejam bem) prestação de serviços de apoio ao catolicismo francês, com os fundadores se auto-denominando aliados da Igreja Católica e descrevendo o Priorado como uma autêntica sociedade católica. Esse grupo foi oficialmente dissolvido em 1956, voltando à ativa entre 1961 e 1963. As autoridades francesas o consideram até hoje extinto, já que não mostrava nenhuma atividade desde a década de 1950.

Pistas

Se o Priorado aparece legalmente como uma ordem católica que apoia a igreja no território francês e se Pierre Plantard, o suposto grão-mestre de lá, se mostrou disposto a propagar o mito da Linhagem Sagrada, é perceptível a incoerência entre as versões das origens. Plantard era considerado um mitomaníaco, ou seja, alguém que inventa histórias para poder explorá-las segundo o interesse das pessoas. Na França há uma enorme tradição na caça a tesouros supostamente ocultos e o mistério da cidadezinha de Rennes-le-Chateau e seu padre que enriquecera misteriosamente se tornou uma atração que atraiu muitos turistas e pessoas que sonham em escanear o subsolo do vilarejo em busca do ouro templário perdido.

A versão mais aceita por quem estuda o Priorado de Sião é a de que Plantard, de origem humilde, criou essa versão para se colocar como pretendente do suposto trono francês, extinto oficialmente desde a época da Revolução Francesa, em 1789. Para tanto ele teria inventado a Linhagem Sagrada para legitimar uma “real e divina descendência” que, após algumas manipulações nos Dossiês Secretos forjados por ele e seus sócios fundadores do priorado, colocariam ele na linha de sucessão francesa, ignorando os verdadeiros pretendentes que existem até hoje.

Revisão

Misturando templários, sociedades secretas, Rennes-le-Chateau e os mitos construídos ao redor dos padres dos vilarejos ao redor de lá, Plantard construiu uma saga que faz Jesus ser retirado da cruz com vida (algo que alguns dos evangelhos apócrifos citam), se recuperar e deixar a Terra Santa com Maria Madalena e sua filha, Sara, para ir parar no sul da França. Lá Sara seria adorada como uma Virgem Negra (o que de fato acontece) e a própria Maria Madalena seria transformada numa espécie de múmia e cujos restos mortais estão em Provence, no litoral francês.

O sul daquele país, já cheio de lendas e mitos que envolvem principalmente templários e cátaros, seria o cenário principal da suposta vinda da Linhagem Sagrada. Madalena, Jesus e Sara morreriam por lá e teriam seus restos escondidos do mundo. É quando entra o Priorado de Sião, que tenta guardar os descendentes de Jesus da perseguição e intolerância religiosa. Mas como, se eles só surgiriam mais tarde e se declararam tipicamente católicos?

Plantard chegou a revisar o mito do Priorado de Sião antes de morrer. Mal sabia ele que cerca de quatro anos mais tarde, O Código da Vinci sairia e ajudaria na fixação dessa revisão. O grão-mestre afirmou que seu priorado influenciara outras sociedades secretas além dos templários, dentre elas a Maçonaria e a Rosacruz. Também foi ele que lançou a teoria da palavra Graal ser uma corruptela da expressão Sangreal, que teria sido usada por autores como Thomas Malory (1405-1471) como uma prova de que o sentido correto da expressão seria mesmo “sangue real”. Há quem garanta que a derivação é, na verdade, criação do trio de escritores britânicos que apresentou ao mundo O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. O mistério ainda deve confundir e seduzir muitos interessados em problemas insolúveis do passado e caças a tesouros.

 

 

Phillipe de Chérisey

Plantard não tirava tudo da cabeça quando criava suas histórias. Um aliado importante foi Philippe Louis Henri Marie de Chérisey (1923-1985), que foi um colaborador durante os anos 1960 e 1970.

Praticamente foi ele quem apresentou os elementos que se tornariam parte do mito do Priorado de Sião. O marquês, que era produtor de rádio, escritor e ator coadjuvante, ajudou a misturar simbologia alquímica, a lenda de um esconderijo templário cheio de ouro na comuna de Gisors, o padre Bérenger Saunière e a lenda do tesouro de Rennes-le-Château, os pintores Nicolas Poussin (1594-1665) e David Teniers, filho (1610-1690), o cruzado Godofredo de Bulhão (1058-1100), o Papa João XXIII (1881-1963) e outros.

A divulgação aconteceu por meio de outro colaborador valioso de Plantard, o jornalista Gérard de Sède (1921-2004), por meio de dois livros inéditos por aqui: Les templiers sont parmi nous (Os templários estão entre nós, de 1962) e L'or de Rennes (O ouro de Rennes, de 1967).

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